Liu Sai Yam
da série - A Voz do Polvo
Sobre direitos humanos, expressão jurídica da Declaração Universal dos Direitos do Homem, promulgada pela Organização das Nações Unidas, aos 10 de dezembro de 1948, há balbúrdia, na qual cada um reage de acordo com disposição própria.
Exemplo: julga-se legítimo restringir direitos individuais em situações de guerra. O governo Bush empenhou-se por estabelecer como ato de guerra o atentado às torres gêmeas, que, perante fóruns nacionais e internacionais, legalizaria e justificaria medidas restritivas aos direitos individuais garantidos pela Constituição de seu país e pela Carta dos Direitos Internacionais; argumento que setores intelectualizados da sociedade civil norte-americana, portanto mais influentes, ligados ao ideário democrático, na tradição liberal de Andrew Jackson, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, contestaram enfaticamente.
A questão: pode haver direitos universais em um planeta dividido em Estados nacionais com desenvolvimentos desiguais, culturas específicas e, principalmente, organizado segundo núcleos de dominação e áreas de dependência?
Mais ainda, se
Brasil, por sua desigualdade social é ironicamente denominado Belíndia, o que dizer da China, que concentra em seu território a diversidade sócio-econômica do planeta inteiro, abrigando desde ilhas de prosperidade similares aos centros financeiros mais avançados do mundo a concentrações paupérrimas situadas na escala mais baixa do IDH? Claro, existem as “altas inspirações” acima de governos e políticas, como: ninguém deve morrer de fome, ninguém deve ser torturado, todos têm direito a moradia, saúde e trabalho; legal, quem seria besta de não assinar embaixo? A pergunta: Vai fazer funcionar como, agora, amanhã, já?
Pelo jeitão, a maré está mais para os direitos de alguns humanos. Há coisinha de cem anos, o berço da democracia moderna enforcava ladrões de cavalos, fazia churrasquinho de mocinhas suspeitas de bruxaria, punha chinas-paus e negões para suar em ferrovias e plantations, à base de chibata e pelourinho. Aliás, há menos de cinqüenta anos, tiro-ao-alvo em pretos era socialmente admissível, aplaudido, até.
Fazer o quê? Era preciso, era parte do processo evolutivo à democracia perfeita e exportável.
E nós?
Ficamos numas de botar panos-quentes no sistema dos Wongs e Tongs e Chongs, linhas-duras globalizados a misturar bolsa de valores com pelotão de fuzilamento? Entrar numas de levantar a bola de Fidel, Chávez, Evo, e demais estigmatizados pelo Index liberal? Se tomarmos a história da China, antiga e recente, como as histórias de todas as civilizações, mesmo as avançadas e democráticas segundo os critérios de hoje, daremos de cara com crônicas horripilantes, baseadas em chacina, violações, abusos, banhos de sangue e pilhas de cadáveres. Assim caminha a humanidade.
O que era crime ontem, hoje é normalidade; o amigo-pra-sempre de anteontem é o canalha a ser extirpado da face da terra pra ontem; vide os exemplos nadificantes de Saddam, Pinochet e Bin Laden. Nesse caos de idas e vindas, organizações humanitárias e Humans Rights Watch vagam ao sabor de informações e contra-informações, e da seleção da mídia internacional, que decide a que dar destaque e o que varrer pra baixo do tapete.
Quer dizer que organizações de preservação dos direitos humanos são inúteis, mal intencionados, defensores de interesses colonialistas? Não, são fundamentais como fator de minimização e denúncia de abusos contra a pessoa, que a humanidade, à medida que se desenvolve, elabora para se autocontrolar num sentido civilizatório. Mas são inócuas quando o pau quebra. Alguém sabe de ong que tenha alterado uma política estatal repressiva, detido escaladas de guerra ou genocídio? Ongs atuam quando baixa a poeira e sobram as multidões de refugiados e perseguidos. Aí, é tentar apagar incêndio com seringa. São “caras” legais? São. Bem-intencionados? São. Ajudam? Demais. São a última esperança para os totalmente indefesos? São. Vamos apoiá-los? Sempre! Solucionam problemas estruturais, para que nunca mais se repitam situações de crise? Não.
Então, como diria um sujeito em princípios do século passado: “O que fazer?” (bem diferente, até oposto de “Fazer o quê?”).
Está esperando resposta? Sai dessa, estamos aqui fazendo marola. Se tivéssemos resposta, já teríamos papado a bufunfa daquela sociedade de Estocolmo, cujo fundador, por sinal, fez fortuna inventando jeito de matar gente por atacado. “Está certo”, diria ele, “servia pra dinamitar pedra e abrir túnel em montanha”. O tipo que cortou o núcleo de um átomo, só queria também arrumar jeito de descolar energia farta e barata. Deram no que deram. Fazer o quê? (Aí vale).
Enfim, China está em foco, como o Chucky da Coréia, o milongueiro de Caracas, o ex-Raíces de América de La Paz, o barbudinho de Teerã e o barbudão de Havana. Somos ameaças. Somos atrasados, selvagens, anacrônicos; mas, em compensação, temos tanto a oferecer! Um vírgula três bilhões de consumidores, só num dos paisecos, nada mau! O outro tem petróleo, o outro é estratégico, o outro tem cobre, o outro está encostadinho em parceiro, por aí vai.
Viram como no babado todo os direitos humanos dançaram? Vai se meter em business que envolve bilhões? Interferir com International Trade, atravancar a vida de chairmen, managers e agencies por conceitos sem sentido, como... Direitos Humanos? O pessoal, digamos, realista veio com lance dos mais sedutores, surfando na paranóia que constrói o círculo vicioso da intransigência, coisa de gênio publicitário: “Quem defende os humanos direitos?”. Fantástico, quem não embarcaria?
Aí, ficamos entre os extremos do óbvio: direitos para os direitos, e direito de os direitos negar direitos aos não-direitos. Fascinante é pouco para descrever a destreza dos que vendem o peixe aos que podem pagar. Também, quanto valerá um segundo nos horários nobres, ou entre novelas ministrando lições de moral e BBB’s ministrando o vale-tudo?
Mas, e os direitos dos nascidos sem-direitos? Dos esqueletos que surgem durante 15 segundos nas telas, entre comerciais e anúncios, para sumir para sempre da consciência do mundo liberal e democrático? Como lidar com o neguinho cadavérico que aparece por segundos na tela? E o maluco que lutou pelo neguinho e foi decapitado a golpes de facão? Como administrar a maluquice?
Temos celulares, shoppings, restaurantes, previdência privada, vias expressas, mendigos, viadutos, favelas e edifícios de fachada azul, verde, lilás, todos convivendo juntos sob o Sol, que nasceu para todos.
Mas Direitos Humanos são para todos? Aliás, teríamos todos, igualmente, deveres humanos?
4 comentários:
Que coisa! Estudando com o leve zunzunzum do silêncio da noite, eu, uma eterna defensora dos Direitos Humanos e procurando contra-argumentos para defender meu ideal atemporal e universal que não precisaria ser posto se os “homens” já fossem sensatos, mas por causa da encrenca da dualidade da pessoa humana, até gravado na pedra foi (se realmente no Monte Sinai, não sei, mas reduzido a 9 mandamentos –sim, pois cortaram o 7), onde venho parar? No blog do Liu!!!!!!!!!! Se isto não é universalidade, o que é? Sim Liu, todos temos deveres humanos, os de fazer valer os direitos humanos. Mas , enquanto isto não ocorre, há casos de direitos humanos em cada esquina, e é animando os dispositivos que jaziam inertes e “preto no branco” na Carta de 1988, que este Brasil já voltou a caminhar. Assim se consegue parar os torturadores, uns após os outros, torturadores de mulheres, torturadores de liberdade de ir e vir, torturadores da liberdade de pensar, torturadores. O ser humano é um fim em si, jamais um meio. E se meio e não inteiro for, não será um fim e sim o fim...
É a Nicole, Liu, a Nicole que gostava de postar no Nassif e curtia intervenções de pessoas como você. Você escreve maravilhosamente bem!
Um abraço
Olá, Nicole,
Um grande prazer mesmo!
Da última vez, me lembro muito bem, estávamos falando de Rosebuds e Alices quando você se evaporou.
Ainda curtindo Welles e meandros jurídicos? Isso de Direitos Universais é problema. Não sei até quando haverá direitos, e humanos como a gente imagina que deveriam ser.
Obrigado mesmo pelas palavras e espero que seja o começo de uma longa amizade!
Abração, Nicole, foi mesmo muito legal.
O que se vive na infância marca para sempre... Citizen Kane ainda sentia seu trenô de madeira com as rosas pintadas na imensidão do branco e procurou isto no quebra cabeça gigante de sua inteira existência... Aquela bola de vidro que liberta os flocos de neve nos livra a ultima palavra de Kanes “Rosebud”, e esta cena somente revela o segredo de primeira aos que sentiram ao início do filme como o pequeno Kanes é fisicamente arrancado de sua infância. Welles era genial!
Posso ter uma visão simplista das coisas, mas os homens e as mulheres (mais raras) que tristemente marcaram nossa história tiveram uma infância tão massacrada que jamais procuraram regressar para qualquer sensação que tivesse salvado os primeiros anos de suas vidas por um motivo: não houve sensação de bem-estar. Os ditadores não sonham. Algum tempo atrás, fiz para mim um estudo sobre isto e realmente, todos tiveram sua infância ceifada pela ausência de amor, de fantasia, de aconchego, de esperança.
Quanto aos meandros jurídicos, não sei se são meandros, pois mais vejo o direito como fios de Ariane para que o ser humano possa sair do labirinto rumo a um bem-estar social, desde que não se perca de vista a visão antropocentrista, felizmente retomada no século das luzes, de que é o direito que é feito para os homens e nunca os homens que são feitos para o direito. Se você pensar bem, pouca coisa na dimensão humana não é jurídica. Há hipótese de incidência de uma norma jurídica para quase tudo, para não dizer tudo... E isto é fascinante, de certo modo, pois é o fruto de séculos de pensamento. Parece o quebra-cabeça gigante de Kanes, onde, SE DESSE TEMPO, tudo se encaixaria...
Beijos (acho que dei uma de Alice... risos)
Nicole
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