Tantos soldados empenhados
em tais confusos combates...
Liu Sai Yam
Apesar de recomendações em contrário, Ah Lung alistou-se no exército do distrito provincial Tun San, que estava a organizar regimentos com missão de conter investidas bárbaras junto ao setor norte-nordeste da Muralha.
Mais que defender territórios ameaçados da jovem, ainda frágil, nação imperial, moveu-o a expectativa de ser incorporado em eventuais incursões a acampamentos inimigos de além-fronteira, chance certa de participar de botins e despojos de guerra, que lhe permitiriam safar-se do árduo cotidiano nas planícies geladas de Sian Kan, onde se batalha contra chuvas torrenciais, serpentes e lacraias, a troco de míseros quinhões de arroz, nacos de pepino e acanhadas porções de charque, fornecidos pelo dono das lavouras a estender-se por todos os horizontes.
Na disposição de batalhar apenas por si e para si, deixou atrás de si a choupana onde nasceu e viveu durante 32 anos, após um relutante adeus à esposa e à filhinha nascida sete anos atrás, parcos alívios de uma vida parcimoniosa em alegrias.
Um ano depois, sentiu que Tsai Shan (o deus da fortuna) finalmente lhe honrava com a atenção, uma vez que a tropa de sessenta soldados, da qual fazia parte, fora designada para arrasar e incendiar acampamento bárbaro oculto nas fímbrias do Gobi, e cujos guerreiros haviam sido massacrados junto ao setor marrom da Muralha, pela celeste cavalaria imperial que recebia reforços diários e se tornava mais reorganizada a cada amanhecer.
Fulminante foi o ataque e implacáveis as disposições. Um pelotão disciplinado a se transformar em horda ante o olhar incrédulo de Ah Lung. A precária resistência, a grita das mulheres e o pranto das crianças, pareciam atiçar o ímpeto da soldadesca, ao invés de aplacá-lo, e o minúsculo agrupamento tribal se transformou rapidamente em caótico emaranhado de lamentos, banhado em córregos de sangue.
Presenciando o recrudescer da carnificina, Ah Lung se deu conta de sua presença naquele impiedoso redemoinho de esquartejamentos, decapitações e estupros, olhando-se subitamente se com os olhos de esposas e filhas encurraladas pela turba, agredindo-se para auferir o melhor quinhão.
Degolou três camaradas, antes que os demais se dessem conta de estarem a lidar com um traidor insano a voltar-se contra sua própria gente. A ele se atiraram com fúria, berrando impropérios, acossando-o com lanças e espadas. Mas, já naquele momento, ele combatia por algo de natureza mais essencial do que a própria sobrevivência. Lutava pelos únicos alívios com que pudera contar, nesta vida parcimoniosa em alegrias. Por elas, pelo sorriso aberto com que o recepcionavam nos tristes retornos dos entardeceres de tantos dias árduos e desesperançados, pelo perdão com que o acolhiam em momentos de ébria revolta contra o imutável destino de lavrador, pelo calor que ofereciam nas noites frias do norte, esquentando a esteira com seus corpos e risos; por tais delícias valia resistir a assassinos enviados por todos os regimentos da terra a se estender debaixo do sol, da lua e das estrelas. Por tais criaturas valia lutar, pela fragilidade de tais seres valia matar, pela luminosidade de tantos semblantes inocentes, valia morrer.
Combateu como um possuído, destroçando corpos com indiferença igual com que seu próprio corpo recebia cutiladas, pancadas e golpes de lança.
Mataram-no ao entardecer, quando a última gota de sangue lhe vazou do corpo dilacerado, permitindo que o trucidassem a estocadas de lança e golpes de machado. Morreu, quando o sol se punha para os lados daquele lugar que soube enfim reconhecer como Pátria, provavelmente tingindo em tons de amarelo esmaecido as searas da gélida planície Sian Kan, em cuja orla ocidental existe tosca choupana, onde acendem uma vela todas as noites para iluminar o seu caminho de regresso em segurança.
