domingo, 14 de dezembro de 2008

A Saga do Mau Soldado

Tantos soldados empenhados
em tais confusos combates...
Liu Sai Yam
Apesar de recomendações em contrário, Ah Lung alistou-se no exército do distrito provincial Tun San, que estava a organizar regimentos com missão de conter investidas bárbaras junto ao setor norte-nordeste da Muralha.
Mais que defender territórios ameaçados da jovem, ainda frágil, nação imperial, moveu-o a expectativa de ser incorporado em eventuais incursões a acampamentos inimigos de além-fronteira, chance certa de participar de botins e despojos de guerra, que lhe permitiriam safar-se do árduo cotidiano nas planícies geladas de Sian Kan, onde se batalha contra chuvas torrenciais, serpentes e lacraias, a troco de míseros quinhões de arroz, nacos de pepino e acanhadas porções de charque, fornecidos pelo dono das lavouras a estender-se por todos os horizontes.
Na disposição de batalhar apenas por si e para si, deixou atrás de si a choupana onde nasceu e viveu durante 32 anos, após um relutante adeus à esposa e à filhinha nascida sete anos atrás, parcos alívios de uma vida parcimoniosa em alegrias.
Um ano depois, sentiu que Tsai Shan (o deus da fortuna) finalmente lhe honrava com a atenção, uma vez que a tropa de sessenta soldados, da qual fazia parte, fora designada para arrasar e incendiar acampamento bárbaro oculto nas fímbrias do Gobi, e cujos guerreiros haviam sido massacrados junto ao setor marrom da Muralha, pela celeste cavalaria imperial que recebia reforços diários e se tornava mais reorganizada a cada amanhecer.
Fulminante foi o ataque e implacáveis as disposições. Um pelotão disciplinado a se transformar em horda ante o olhar incrédulo de Ah Lung. A precária resistência, a grita das mulheres e o pranto das crianças, pareciam atiçar o ímpeto da soldadesca, ao invés de aplacá-lo, e o minúsculo agrupamento tribal se transformou rapidamente em caótico emaranhado de lamentos, banhado em córregos de sangue.
Presenciando o recrudescer da carnificina, Ah Lung se deu conta de sua presença naquele impiedoso redemoinho de esquartejamentos, decapitações e estupros, olhando-se subitamente se com os olhos de esposas e filhas encurraladas pela turba, agredindo-se para auferir o melhor quinhão.
Degolou três camaradas, antes que os demais se dessem conta de estarem a lidar com um traidor insano a voltar-se contra sua própria gente. A ele se atiraram com fúria, berrando impropérios, acossando-o com lanças e espadas. Mas, já naquele momento, ele combatia por algo de natureza mais essencial do que a própria sobrevivência. Lutava pelos únicos alívios com que pudera contar, nesta vida parcimoniosa em alegrias. Por elas, pelo sorriso aberto com que o recepcionavam nos tristes retornos dos entardeceres de tantos dias árduos e desesperançados, pelo perdão com que o acolhiam em momentos de ébria revolta contra o imutável destino de lavrador, pelo calor que ofereciam nas noites frias do norte, esquentando a esteira com seus corpos e risos; por tais delícias valia resistir a assassinos enviados por todos os regimentos da terra a se estender debaixo do sol, da lua e das estrelas. Por tais criaturas valia lutar, pela fragilidade de tais seres valia matar, pela luminosidade de tantos semblantes inocentes, valia morrer.
Combateu como um possuído, destroçando corpos com indiferença igual com que seu próprio corpo recebia cutiladas, pancadas e golpes de lança.
Mataram-no ao entardecer, quando a última gota de sangue lhe vazou do corpo dilacerado, permitindo que o trucidassem a estocadas de lança e golpes de machado. Morreu, quando o sol se punha para os lados daquele lugar que soube enfim reconhecer como Pátria, provavelmente tingindo em tons de amarelo esmaecido as searas da gélida planície Sian Kan, em cuja orla ocidental existe tosca choupana, onde acendem uma vela todas as noites para iluminar o seu caminho de regresso em segurança.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

O Direito Universal à encrenca

Liu Sai Yam
da série - A Voz do Polvo
Sobre direitos humanos, expressão jurídica da Declaração Universal dos Direitos do Homem, promulgada pela Organização das Nações Unidas, aos 10 de dezembro de 1948, há balbúrdia, na qual cada um reage de acordo com disposição própria. Exemplo: julga-se legítimo restringir direitos individuais em situações de guerra. O governo Bush empenhou-se por estabelecer como ato de guerra o atentado às torres gêmeas, que, perante fóruns nacionais e internacionais, legalizaria e justificaria medidas restritivas aos direitos individuais garantidos pela Constituição de seu país e pela Carta dos Direitos Internacionais; argumento que setores intelectualizados da sociedade civil norte-americana, portanto mais influentes, ligados ao ideário democrático, na tradição liberal de Andrew Jackson, Thomas Jefferson e Benjamin Franklin, contestaram enfaticamente. A questão: pode haver direitos universais em um planeta dividido em Estados nacionais com desenvolvimentos desiguais, culturas específicas e, principalmente, organizado segundo núcleos de dominação e áreas de dependência? Mais ainda, se Brasil, por sua desigualdade social é ironicamente denominado Belíndia, o que dizer da China, que concentra em seu território a diversidade sócio-econômica do planeta inteiro, abrigando desde ilhas de prosperidade similares aos centros financeiros mais avançados do mundo a concentrações paupérrimas situadas na escala mais baixa do IDH? Claro, existem as “altas inspirações” acima de governos e políticas, como: ninguém deve morrer de fome, ninguém deve ser torturado, todos têm direito a moradia, saúde e trabalho; legal, quem seria besta de não assinar embaixo? A pergunta: Vai fazer funcionar como, agora, amanhã, já? Pelo jeitão, a maré está mais para os direitos de alguns humanos. Há coisinha de cem anos, o berço da democracia moderna enforcava ladrões de cavalos, fazia churrasquinho de mocinhas suspeitas de bruxaria, punha chinas-paus e negões para suar em ferrovias e plantations, à base de chibata e pelourinho. Aliás, há menos de cinqüenta anos, tiro-ao-alvo em pretos era socialmente admissível, aplaudido, até. Fazer o quê? Era preciso, era parte do processo evolutivo à democracia perfeita e exportável. E nós? Ficamos numas de botar panos-quentes no sistema dos Wongs e Tongs e Chongs, linhas-duras globalizados a misturar bolsa de valores com pelotão de fuzilamento? Entrar numas de levantar a bola de Fidel, Chávez, Evo, e demais estigmatizados pelo Index liberal? Se tomarmos a história da China, antiga e recente, como as histórias de todas as civilizações, mesmo as avançadas e democráticas segundo os critérios de hoje, daremos de cara com crônicas horripilantes, baseadas em chacina, violações, abusos, banhos de sangue e pilhas de cadáveres. Assim caminha a humanidade. O que era crime ontem, hoje é normalidade; o amigo-pra-sempre de anteontem é o canalha a ser extirpado da face da terra pra ontem; vide os exemplos nadificantes de Saddam, Pinochet e Bin Laden. Nesse caos de idas e vindas, organizações humanitárias e Humans Rights Watch vagam ao sabor de informações e contra-informações, e da seleção da mídia internacional, que decide a que dar destaque e o que varrer pra baixo do tapete. Quer dizer que organizações de preservação dos direitos humanos são inúteis, mal intencionados, defensores de interesses colonialistas? Não, são fundamentais como fator de minimização e denúncia de abusos contra a pessoa, que a humanidade, à medida que se desenvolve, elabora para se autocontrolar num sentido civilizatório. Mas são inócuas quando o pau quebra. Alguém sabe de ong que tenha alterado uma política estatal repressiva, detido escaladas de guerra ou genocídio? Ongs atuam quando baixa a poeira e sobram as multidões de refugiados e perseguidos. Aí, é tentar apagar incêndio com seringa. São “caras” legais? São. Bem-intencionados? São. Ajudam? Demais. São a última esperança para os totalmente indefesos? São. Vamos apoiá-los? Sempre! Solucionam problemas estruturais, para que nunca mais se repitam situações de crise? Não. Então, como diria um sujeito em princípios do século passado: “O que fazer?” (bem diferente, até oposto de “Fazer o quê?”). Está esperando resposta? Sai dessa, estamos aqui fazendo marola. Se tivéssemos resposta, já teríamos papado a bufunfa daquela sociedade de Estocolmo, cujo fundador, por sinal, fez fortuna inventando jeito de matar gente por atacado. “Está certo”, diria ele, “servia pra dinamitar pedra e abrir túnel em montanha”. O tipo que cortou o núcleo de um átomo, só queria também arrumar jeito de descolar energia farta e barata. Deram no que deram. Fazer o quê? (Aí vale). Enfim, China está em foco, como o Chucky da Coréia, o milongueiro de Caracas, o ex-Raíces de América de La Paz, o barbudinho de Teerã e o barbudão de Havana. Somos ameaças. Somos atrasados, selvagens, anacrônicos; mas, em compensação, temos tanto a oferecer! Um vírgula três bilhões de consumidores, só num dos paisecos, nada mau! O outro tem petróleo, o outro é estratégico, o outro tem cobre, o outro está encostadinho em parceiro, por aí vai. Viram como no babado todo os direitos humanos dançaram? Vai se meter em business que envolve bilhões? Interferir com International Trade, atravancar a vida de chairmen, managers e agencies por conceitos sem sentido, como... Direitos Humanos? O pessoal, digamos, realista veio com lance dos mais sedutores, surfando na paranóia que constrói o círculo vicioso da intransigência, coisa de gênio publicitário: “Quem defende os humanos direitos?”. Fantástico, quem não embarcaria? Aí, ficamos entre os extremos do óbvio: direitos para os direitos, e direito de os direitos negar direitos aos não-direitos. Fascinante é pouco para descrever a destreza dos que vendem o peixe aos que podem pagar. Também, quanto valerá um segundo nos horários nobres, ou entre novelas ministrando lições de moral e BBB’s ministrando o vale-tudo? Mas, e os direitos dos nascidos sem-direitos? Dos esqueletos que surgem durante 15 segundos nas telas, entre comerciais e anúncios, para sumir para sempre da consciência do mundo liberal e democrático? Como lidar com o neguinho cadavérico que aparece por segundos na tela? E o maluco que lutou pelo neguinho e foi decapitado a golpes de facão? Como administrar a maluquice? Temos celulares, shoppings, restaurantes, previdência privada, vias expressas, mendigos, viadutos, favelas e edifícios de fachada azul, verde, lilás, todos convivendo juntos sob o Sol, que nasceu para todos. Mas Direitos Humanos são para todos? Aliás, teríamos todos, igualmente, deveres humanos?

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

Da diferença entre os homens e os animais

Liu Sai Yam

Certo filósofo definiu da seguinte maneira a essência da diferença entre os homens e os animais: O que distingue uma abelha de um engenheiro é que a primeira, ao construir sua colméia - admirável pela precisa funcionalidade e exatidão na técnica de confecção em forma geométrica - age por instinto determinado por sua natureza; age de modo irracional, expressando impulso que lhe vem geneticamente inscrita. O engenheiro, por menor que seja sua perícia técnica, antes da realização da obra tem o poder de visualizar com antecedência o resultado de sua ação, idealiza o projeto em seu espírito, como as etapas necessárias à finalização; de modo que não está preso a um único modelo funcional, a uma única forma de execução ou a um único projeto: tem, diante de si, virtualmente, um leque de opções onde exercitar criatividade e liberdade de escolha. Isto caracteriza o homem como ser racional, inteligente, consciente e artístico. O mundo que o homem transforma e conforma, vai se tornando, na mesma medida, espelho de si mesmo, expressão e objetivação de sua subjetividade, ou seja, vai se processando como humanização da natureza.

Ao desenvolver as suas atividades, o homem adapta seu entorno de acordo com suas necessidades, interesses e desejos, o que implica uma dimensão subjetiva (projeto, idealização do que se pretende construir) e uma dimensão objetiva (esforço humano, matéria-prima e instrumentos de trabalho postos num movimento coordenado), dimensões que se indeterminam dialeticamente. Nesta equação, o papel do instrumento, ou da ferramenta, não deixa de ser essencial - como mediação entre o esforço humano informado pelo projeto, e a matéria bruta que serve como substância de moldagem - dele dependem a eficácia da atividade e o resultado final do produto, a aproximação ao conceito original.

Benjamin Franklin, na terra do utilitarismo e do pragmatismo, definiu o homem como “a toolmaking animal” (um animal produtor de ferramentas). Para obter aptidão tão importante, do ponto de vista da evolução biotipológica, foram cruciais o desenvolvimento da postura ereta, que permitiu a liberação das mãos para a experimentação sensível e a manipulação de objetos, e a evolução dos polegares opositores, que permitiram destreza na manipulação.

De acordo com Max Weber, a civilização ocidental foi evoluindo no sentido de uma racionalização cada vez maior do mundo. Esse processo, também definido como “desencantamento do mundo”, foi se fazendo, por um lado, pelo abandono da crença e dos apelos a poderes mágicos imprevisíveis, que, segundo tal tipo de crença, governariam os homens e a natureza; e, por outro lado, pelo poder crescente da crença e do apelo à prática científica, que, através de métodos e técnicas, se mostra mais eficiente ao controle, previsão e manipulação do entorno; portanto, mais aceitável como teoria explicativa. Atualmente, muitos sociólogos têm defendido a nossa realidade como a sociedade do conhecimento: com o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, o crescente conteúdo tecnológico das forças e processos produtivos, o aumento da racionalização na administração de empreendimentos e, por fim, a informatização generalizada dos diversos processos.

A competitividade das economias depende cada vez mais dos volumes de investimento em pesquisa, tecnologia, ensino e qualificação dos operadores da produção. Tal processo, em verdade, já transbordou o âmbito da “civilização ocidental”, espalhando-se por todas as regiões do mundo. Do primitivo que, pela primeira vez, fez uso de uma vara para derrubar o fruto de um galho inacessível, até o moderno que fará uso de células-tronco para criar órgãos ou regenerar tecidos humanos, continua valendo o mesmo processo formal (projeto – esforço humano – instrumental – resultado da ação), mas, em termos de conteúdo, a dimensão do progresso e dos alcances é quase imponderável.

Todo aquele que reconhece, e se devota, à racionalidade como fator “humanizador” do homem; que se preocupa com a continuidade desta penosa jornada que conduziu a humanidade até a situação em que vivemos, deve atentar para “gargalos” importantes, que têm obstruído a progressão da evolução. Dois deles: 1) a irracionalidade do sistema econômico baseado na atomização e na competição orientada pelo lucro, que levam à degradação e à relação insustentável com a natureza (Por exemplo: exploração predatória + poluição = problemas climáticos), e também à excessiva concentração da riqueza social, que produz legiões de miseráveis, revelando o paradoxo do subconsumo, ou não-consumo, em tempos de super-produtividade.

2) o modelo das relações no mundo do trabalho, que hierarquiza, e polariza, de um lado o poder, e de outro a submissão, o que condena a maior parte da população a atividades em que só existe a dimensão objetiva (esforço humano, instrumentos e matéria-prima, coordenados), amputada da dimensão subjetiva (inteligência, criação, liberdade de escolha), que é onde repousam essencialmente os fatores de “humanização” do homem.