domingo, 14 de dezembro de 2008
A Saga do Mau Soldado
quinta-feira, 11 de dezembro de 2008
O Direito Universal à encrenca
sexta-feira, 28 de novembro de 2008
Da diferença entre os homens e os animais
Certo filósofo definiu da seguinte maneira a essência da diferença entre os homens e os animais: O que distingue uma abelha de um engenheiro é que a primeira, ao construir sua colméia - admirável pela precisa funcionalidade e exatidão na técnica de confecção em forma geométrica - age por instinto determinado por sua natureza; age de modo irracional, expressando impulso que lhe vem geneticamente inscrita. O engenheiro, por menor que seja sua perícia técnica, antes da realização da obra tem o poder de visualizar com antecedência o resultado de sua ação, idealiza o projeto em seu espírito, como as etapas necessárias à finalização; de modo que não está preso a um único modelo funcional, a uma única forma de execução ou a um único projeto: tem, diante de si, virtualmente, um leque de opções onde exercitar criatividade e liberdade de escolha. Isto caracteriza o homem como ser racional, inteligente, consciente e artístico. O mundo que o homem transforma e conforma, vai se tornando, na mesma medida, espelho de si mesmo, expressão e objetivação de sua subjetividade, ou seja, vai se processando como humanização da natureza.
Ao desenvolver as suas atividades, o homem adapta seu entorno de acordo com suas necessidades, interesses e desejos, o que implica uma dimensão subjetiva (projeto, idealização do que se pretende construir) e uma dimensão objetiva (esforço humano, matéria-prima e instrumentos de trabalho postos num movimento coordenado), dimensões que se indeterminam dialeticamente. Nesta equação, o papel do instrumento, ou da ferramenta, não deixa de ser essencial - como mediação entre o esforço humano informado pelo projeto, e a matéria bruta que serve como substância de moldagem - dele dependem a eficácia da atividade e o resultado final do produto, a aproximação ao conceito original.
Benjamin Franklin, na terra do utilitarismo e do pragmatismo, definiu o homem como “a toolmaking animal” (um animal produtor de ferramentas). Para obter aptidão tão importante, do ponto de vista da evolução biotipológica, foram cruciais o desenvolvimento da postura ereta, que permitiu a liberação das mãos para a experimentação sensível e a manipulação de objetos, e a evolução dos polegares opositores, que permitiram destreza na manipulação.
De acordo com Max Weber, a civilização ocidental foi evoluindo no sentido de uma racionalização cada vez maior do mundo. Esse processo, também definido como “desencantamento do mundo”, foi se fazendo, por um lado, pelo abandono da crença e dos apelos a poderes mágicos imprevisíveis, que, segundo tal tipo de crença, governariam os homens e a natureza; e, por outro lado, pelo poder crescente da crença e do apelo à prática científica, que, através de métodos e técnicas, se mostra mais eficiente ao controle, previsão e manipulação do entorno; portanto, mais aceitável como teoria explicativa. Atualmente, muitos sociólogos têm defendido a nossa realidade como a sociedade do conhecimento: com o desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação, o crescente conteúdo tecnológico das forças e processos produtivos, o aumento da racionalização na administração de empreendimentos e, por fim, a informatização generalizada dos diversos processos.
A competitividade das economias depende cada vez mais dos volumes de investimento em pesquisa, tecnologia, ensino e qualificação dos operadores da produção. Tal processo, em verdade, já transbordou o âmbito da “civilização ocidental”, espalhando-se por todas as regiões do mundo. Do primitivo que, pela primeira vez, fez uso de uma vara para derrubar o fruto de um galho inacessível, até o moderno que fará uso de células-tronco para criar órgãos ou regenerar tecidos humanos, continua valendo o mesmo processo formal (projeto – esforço humano – instrumental – resultado da ação), mas, em termos de conteúdo, a dimensão do progresso e dos alcances é quase imponderável.
Todo aquele que reconhece, e se devota, à racionalidade como fator “humanizador” do homem; que se preocupa com a continuidade desta penosa jornada que conduziu a humanidade até a situação em que vivemos, deve atentar para “gargalos” importantes, que têm obstruído a progressão da evolução. Dois deles: 1) a irracionalidade do sistema econômico baseado na atomização e na competição orientada pelo lucro, que levam à degradação e à relação insustentável com a natureza (Por exemplo: exploração predatória + poluição = problemas climáticos), e também à excessiva concentração da riqueza social, que produz legiões de miseráveis, revelando o paradoxo do subconsumo, ou não-consumo, em tempos de super-produtividade.
2) o modelo das relações no mundo do trabalho, que hierarquiza, e polariza, de um lado o poder, e de outro a submissão, o que condena a maior parte da população a atividades em que só existe a dimensão objetiva (esforço humano, instrumentos e matéria-prima, coordenados), amputada da dimensão subjetiva (inteligência, criação, liberdade de escolha), que é onde repousam essencialmente os fatores de “humanização” do homem.
